quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Capítulo 5: Jéssica


13 de abril de 2016

Querido diário,
Estou bem cansada disso tudo. Já estou há uma semana sendo abusada depois da aula. Jessica não percebe nada e eu não consigo reunir forças para contar. Acho que Natan estava certa mesmo, devo ser apenas uma putinha desajustada. Por que alguém acreditaria em mim? Tenho que me conformar com a condição a qual fui exposta. Antes disso tudo começar, sempre pensei que o sexo seria algo sublime, um momento para compartilhar e guardar na memória. Agora, toda vez que penso no assunto, é quase como se todo o sofrimento que passo viesse de uma vez. A falta de ar, o rosto todo melado, aquele gosto ruim na boca e a tristeza de saber que, em vinte e quatro horas, estarei novamente na mesma cama, na mesma posição, sentindo minhas genitálias doerem e arderem fortemente.

Jessica acha que eu só estou sofrendo com o que já aconteceu. Ela não está errada, mas culpa Rodrigo. Não que ele não tenha culpa, afinal foi quem começou tudo, mas o lobo de verdade é o que está junto com ela. Uma coisa que eu paro para pensar é: se Natan quer tanto fazer sexo com alguém, por que não com Jessica? Eles já estão juntos mesmo, acho até que ela gostaria. Chego à conclusão de que eu sou apenas um objeto de masturbação. Ele me usa porque sabe que eu estarei ali no dia seguinte, não vou cobrar presente de dia dos namorados e não vou fazê-lo gastar com cinemas românticos. Nem com camisinha.

Não posso deixar de sentir pena de Jessie. Sinto-me cada vez mais fraca por não ter o que dizer. Só não tenho certeza de que ela acreditaria. De fato, para o mundo inteiro, quem divulgou o meu vídeo com Rodrigo fui eu mesma. São pouquíssimas as pessoas que acreditam na minha inocência. E se Jessica não fosse uma dessas pessoas? E se, na cabeça dela, eu só estivesse precisando de atenção e tivesse atendido a um impulso involuntário de uma garota que só quer ser vista e desejada? Não há como saber. Não, a menos que eu pergunte. A menos que eu revele o que eu tenho passado todas as noites quando saio do colégio. E se Jessica entrar em depressão? E se ela começar a ficar quebrada por dentro, como eu?

De todas as pessoas que me acolheram, Jessie é quem mais tem me dado forças para seguir em frente. Ela me busca todos os dias em casa, me leva para o colégio, manda mensagens sugerindo coisas para eu fazer em casa... Dicas de filmes, receitas culinárias, poemas e crônicas... Ela de fato parece querer que eu fique bem. Eu gostaria muito de ficar bem, por ela. Gostaria de acordar um dia e chamá-la para tomar um sorvete, como costumávamos fazer.


Eu devo ter estragado tudo. Quis ser a primeira do grupo a transar com um garoto, mas acho que não estava pronta. Deixei tantos erros acontecerem e agora vou pagar por cada um deles. Minhas noites com Natan são o pagamento por todos os erros que eu fiz. Nos dois primeiros dias, doía muito. Eu queria chorar sem parar. Já no terceiro e no quarto, o simples fato de não doer, já me causava um certo alívio. Do quinto em diante, eu acho que entrei num piloto automático. Eu deixo ele entrar e sair e fazer o que quiser com meu corpo. Quando eu chego em casa, desabo e choro. Não por mim, mas pela minha amiga. Sinto muito por tudo o que eu fiz para ela.

Capítulo 4                                                                                                                             Capítulo 6


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