sábado, 12 de setembro de 2015

Capítulo 14: Sétimo dia




Eu não sei como começar isso. Não sou o Maurício, não sou maluca de falar com um caderno como se ele tivesse vida. Também não sei como dar essa notícia, mas o meio que mais me parece ser eficiente é o direto e frio.

Maurício morreu.

 Ele estava escrevendo nessas páginas quando aconteceu o acidente, há exatamente uma semana atrás. Eu não sei como lidar com a perda, não sei como reagir a isso tudo. Por isso não vou me identificar por ora, e nem falar sobre o ocorrido. Minha mente ainda não processou o que aconteceu, então não consigo formar pensamentos sobre, muito menos palavras. Hoje estaríamos fazendo a missa, mas Maurício sempre foi pé no chão e queria ser cremado, nada mais. Nada de missas, padres e gente reunida em volta do corpo. Ele só queria que lembrassem dele.

E é por isso que estou escrevendo aqui. Parte por isso ser bem importante pra ele, mas também para mostrar para quem quer que pegue este caderno, como um simples ser humano pode se tornar um herói. A vida dele nesses últimos anos foi repleta de eventos que não podem ser esquecidos. Maurício foi alguém que brilhou por detrás das cortinas. Espero que o que eu escreva aqui sirva para mostrar que apenas a menor das boas intenções já serve para mudar o mundo, um pedaço de cada vez.

O mundo não é singular, e saber disso foi uma das características mais notáveis do Maurício. Há um mundo dentro de cada pessoa. Você pode não fazer diferença internacionalmente, mas pode trazer paz ao mundo de uma criança que perdeu a família, pode salvar da destruição o mundo de um suicida, e pode trazer felicidade completa ao mundo dos que estão ao seu redor.

Enquanto eu coletava as coisas do Maurício, encontrei uma pilha de folhas de caderno com um conteúdo peculiar. Nelas estavam anotações que o Mau fez nesses últimos anos, os quais ele estava se corroendo para não escrever nesse caderno. Vou selecionar algumas importantes e transferirei para cá. Deixarei periodicamente nesse caderno tudo aquilo que creio que deva ser lembrado. No fim de tudo, quando tiver terminado com esse caderno, vou deixar ele em uma estante de biblioteca qualquer, para que uma vida aleatória o encontre e conheça essas histórias. É isso, Maurício merece mais do que recebeu durante sua vida. Ele sempre foi grato ao que tinha, mas eu não vejo motivo para essa gratidão. Sua vida foi difícil, foi triste e trágica, então farei dele imortal... Ao menos por meio dessas páginas.

Capítulo 13                                                                                                                             Capítulo 15


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