Eu não sei como começar isso. Não sou o Maurício, não sou
maluca de falar com um caderno como se ele tivesse vida. Também não sei como
dar essa notícia, mas o meio que mais me parece ser eficiente é o direto e
frio.
Maurício morreu.
Ele estava escrevendo
nessas páginas quando aconteceu o acidente, há exatamente uma semana atrás. Eu
não sei como lidar com a perda, não sei como reagir a isso tudo. Por isso não
vou me identificar por ora, e nem falar sobre o ocorrido. Minha mente ainda não
processou o que aconteceu, então não consigo formar pensamentos sobre, muito
menos palavras. Hoje estaríamos fazendo a missa, mas Maurício sempre foi pé no
chão e queria ser cremado, nada mais. Nada de missas, padres e gente reunida em
volta do corpo. Ele só queria que lembrassem dele.
E é por isso que estou escrevendo aqui. Parte por isso ser
bem importante pra ele, mas também para mostrar para quem quer que pegue este
caderno, como um simples ser humano pode se tornar um herói. A vida dele nesses
últimos anos foi repleta de eventos que não podem ser esquecidos. Maurício foi
alguém que brilhou por detrás das cortinas. Espero que o que eu escreva aqui
sirva para mostrar que apenas a menor das boas intenções já serve para mudar o
mundo, um pedaço de cada vez.
O mundo não é singular, e saber disso foi uma das
características mais notáveis do Maurício. Há um mundo dentro de cada pessoa.
Você pode não fazer diferença internacionalmente, mas pode trazer paz ao mundo
de uma criança que perdeu a família, pode salvar da destruição o mundo de um
suicida, e pode trazer felicidade completa ao mundo dos que estão ao seu redor.
Enquanto eu coletava as coisas do Maurício, encontrei uma
pilha de folhas de caderno com um conteúdo peculiar. Nelas estavam anotações
que o Mau fez nesses últimos anos, os quais ele estava se corroendo para não
escrever nesse caderno. Vou selecionar algumas importantes e transferirei para
cá. Deixarei periodicamente nesse caderno tudo aquilo que creio que deva ser
lembrado. No fim de tudo, quando tiver terminado com esse caderno, vou deixar
ele em uma estante de biblioteca qualquer, para que uma vida aleatória o
encontre e conheça essas histórias. É isso, Maurício merece mais do que recebeu
durante sua vida. Ele sempre foi grato ao que tinha, mas eu não vejo motivo para
essa gratidão. Sua vida foi difícil, foi triste e trágica, então farei dele
imortal... Ao menos por meio dessas páginas.


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