22 de Dezembro de 2015
Querido H,
Já nem lembrava mais como era escrever sobre mim.
Minhas mãos tremem. Eu já não tenho mais o foco que tinha há 30 anos.
Ontem eu completei 82 anos. Sabe quantos “parabéns”
eu ouvi? Absolutamente nenhum.
Minha enfermeira saiu esta manhã. Era a quinta que
tentava cuidar de mim. Eu não sei porque o médico continua mandando essa tropa
de chatas, eu não preciso de uma babá.
Eu já fui uma grande estrela um dia, ou pelo menos
passei minha vida inteira tentando ser. Fiz milhares de coisas das quais eu não
me orgulho, e ninguém reconhece a merda do meu trabalho. É estranho uma pessoa
da minha idade falar merda, mas eu falo, escrevo e leio.
Agora há pouco, Felícia, a intrometida da minha
vizinha veio me bater a porta. Ela queria um pote de plástico grande o
suficiente para um peru de Natal. Eu lhe dei um grande o bastante para colocar
sua própria cabeça dentro. Foi quando passei pelo espelho da sala e vi as marcas
de guerra que transcorrem pelo meu rosto.
Lembrei de você imediatamente. “O diário da grande
estrela”, seria publicado no auge da minha carreira. O auge de uma carreira que
eu nunca tive.
Assim que toquei em sua capa dura, lembrei-me de
todas as minhas histórias do show “bisinex”. Carlo Montnegro, Sir Giácomo,
Letícia... Aquele maldito H. que eu nunca esqueci e continuo usando pra me
dirigir a você.
Uma cachaça do
Nordeste e passarei um bom tempo relendo você. Ainda tem uma página em branco
depois dessa, quem sabe eu não concluo minha história de uma vez por todas e
mando publicar...? Hoje em dia publicam qualquer porcaria, por que não publicar
uma obra sobre Patty Star, a maior estrela nunca descoberta.


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