sábado, 18 de abril de 2015

Capítulo 1: Caro Noberto


03 de setembro de 2005
Oi. Como é que se começa isso aqui? Minha mãe disse que tem que ser “Querido diário”. Não tô afim de ficar falando com um pedaço de papel, então acho que vou te chamar de Norberto. Vou começar de novo.
Caro Norberto,
Acho cedo para te chamar de querido. Minha mãe diz sempre para desconfiar de estranhos, e você é bem estranho para mim. Bom, acho que você não sabe muito sobre o seu nascimento, então vou te contar como você nasceu.
Até ontem, eu não sabia direito como a gente nasce. Minha mãe me falou que todo menino tem uma sementinha que fica no... Lá. No pinto. Desculpa pela palavra feia. E todo menina tem uma sementinha na nossa barriga. Todo mês, a minha barriga se prepara para receber uma sementinha de menino, para formar um bebê. Como eu sou muito nova, os bebês não vêm ainda. E aí a barriga se desfaz e é isso que fez eu ter dor de barriga hoje.
Eu perguntei como a sementinha deles encontra a minha. Perguntei se eu ia ter que beber xixi de menino, mas ela disse que entra por baixo. Será que não cai? Ela não quis me responder.
O que importa é que hoje eu tava na escola, e aí eu disse que não ia fazer aula de educação física porque minha barriga tava doendo muito, muitão. O professor disse que ia passar depois do recreio, mas não passou. No recreio, eu vi que todo mundo tava rindo de mim, e eu tava sentindo meu short molhado. Eu achei que fosse suor, mas era sangue. Achei que meu estômago tinha explodido e tava vazando. Deixei de comer o dia todo, porque não sabia se podia. Segundo minha mãe, era só a arrumação se desfazendo.
João Vitor e Gustavo ficaram rindo da minha cara falando que eu tava morrendo, que eu tava mijando sangue e que eu devia estar doente. Garotos idiotas. Só não bati neles porque doía demais. Espero que nunca mais doa assim, da próxima vez, eu vou lembrar do que a mamãe disse e vou usar um “absorvedor”. Ele suga o sangue da arrumação, então eu acho que a dor deve passar também.
É aí que você entra, Norberto. Minha mãe me deu você para eu escrever quando alguma coisa me aborrecesse, ela disse que quando ela virou mocinha, ela também escreveu num diário, então acho que deve ser uma coisa legal.
Vou jantar agora, esse dia todo me deu muita fome, e estou sem comer desde o almoço. Até logo, Norberto. Se comporta. E não fique triste por eu não te chamar de querido ainda. Foi um prazer te conhecer hoje. E não conta pra ninguém o que eu te contei.


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