03 de setembro de 2005
Oi. Como é que se
começa isso aqui? Minha mãe disse que tem que ser “Querido diário”. Não tô afim
de ficar falando com um pedaço de papel, então acho que vou te chamar de
Norberto. Vou começar de novo.
Caro Norberto,
Acho cedo para te
chamar de querido. Minha mãe diz sempre para desconfiar de estranhos, e você é
bem estranho para mim. Bom, acho que você não sabe muito sobre o seu
nascimento, então vou te contar como você nasceu.
Até ontem, eu não sabia
direito como a gente nasce. Minha mãe me falou que todo menino tem uma
sementinha que fica no... Lá. No pinto. Desculpa pela palavra feia. E todo
menina tem uma sementinha na nossa barriga. Todo mês, a minha barriga se
prepara para receber uma sementinha de menino, para formar um bebê. Como eu sou
muito nova, os bebês não vêm ainda. E aí a barriga se desfaz e é isso que fez
eu ter dor de barriga hoje.
Eu perguntei como a
sementinha deles encontra a minha. Perguntei se eu ia ter que beber xixi de
menino, mas ela disse que entra por baixo. Será que não cai? Ela não quis me
responder.
O que importa é que
hoje eu tava na escola, e aí eu disse que não ia fazer aula de educação física
porque minha barriga tava doendo muito, muitão. O professor disse que ia passar
depois do recreio, mas não passou. No recreio, eu vi que todo mundo tava rindo
de mim, e eu tava sentindo meu short molhado. Eu achei que fosse suor, mas era
sangue. Achei que meu estômago tinha explodido e tava vazando. Deixei de comer
o dia todo, porque não sabia se podia. Segundo minha mãe, era só a arrumação se
desfazendo.
João Vitor e Gustavo
ficaram rindo da minha cara falando que eu tava morrendo, que eu tava mijando
sangue e que eu devia estar doente. Garotos idiotas. Só não bati neles porque
doía demais. Espero que nunca mais doa assim, da próxima vez, eu vou lembrar do
que a mamãe disse e vou usar um “absorvedor”. Ele suga o sangue da arrumação,
então eu acho que a dor deve passar também.
É aí que você entra,
Norberto. Minha mãe me deu você para eu escrever quando alguma coisa me
aborrecesse, ela disse que quando ela virou mocinha, ela também escreveu num
diário, então acho que deve ser uma coisa legal.
Vou jantar agora,
esse dia todo me deu muita fome, e estou sem comer desde o almoço. Até logo,
Norberto. Se comporta. E não fique triste por eu não te chamar de querido
ainda. Foi um prazer te conhecer hoje. E não conta pra ninguém o que eu te
contei.


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