18 de setembro de 2015
Norb, hoje foi um dia bastante importante para mim.
Finalmente sentei para conversar com o Henrique.
É estranho sentar-me com ele, depois de tanto tempo.
Quando estivemos juntos, não se pareceu nada como era antes. Ele me olhou nos
olhos e eu não consegui sustentar o olhar. Palavras difíceis. O que dizer para
alguém que você ama, mas que você não pode ter por perto? Eu sempre fui uma boa
atriz. Acho que só tive que interpretar o meu papel. Disse a ele que eu não
tinha mais condições de estar por perto. Disse que eu tinha uma vida nova e que
não havia mais espaço para ele.
Meu coração ficou o quê? Farofa de banana, lógico. Ou
arroz com passas. Qualquer coisa salgada que tenha aquela partícula doce e
indigesta. Exatamente. Meu coração está indigesto, nem eu mesma consigo
suportar viver com isto no meu peito. Pelo menos Guilherme veio aqui em casa e
pudemos conversar um pouco. Ele me escreveu uma carta. Você sabe como ele gosta
de ser dramático e teatral. Escreveu um texto para que eu lesse sempre que me
sentisse mal. A real é que não sei se o texto é para ele ou para mim, por isso
eu tirei xérox e dei uma cópia para ele. Um dia eu irei escrever um do meu
próprio punho. Talvez ele até publique no Bistrô, não sei. Enfim, aqui está a
carta. Resolvi que você ficasse com ela. Você guarda coisas melhor do que eu,
Norbie!
“Lembra, Liv, de quando a gente se conheceu? Éramos tão
jovens e perdidos. Chorávamos por qualquer problema. Hoje a gente ainda chora e
por problemas tão pequenos quanto os de antigamente, mas temos um milhão de
coisas para culpar.
Naquela época, eu era um aspirante a poeta, e me
enfiava em um bloquinho toda vez que podia. Eu raramente olhava em volta. Você
foi a primeira pessoa com quem eu realmente falei. Você curou o que havia de
errado em mim. É... Acho que não. Mas não custa nada mentir de vez enquando. É
só uma porra de uma carta está bem? Eu tenho que te dizer coisas que você vai
ler e ficar se achando a Rainha da Inglaterra. Então engole essas mentiras e
não reclama.
De toda forma, e isso é verdade, todas as pessoas que
entraram na minha vida sairam na primeira oportunidade. Amigos, amores e até
inimigos. Poucas pessoas neste mundo podem contar a minha história, só você
mesma. Você nunca saiu. Você é meu Rexona,
a única que não me abandona.
Veja bem, eu faço merda toda hora. Estrago tudo sempre
que posso. Como ainda não estraguei a nossa amizade? Acho que sei a resposta.
Liv, você conserta as coisas. Diferente de mim. Eu não suporto situações que eu
não sei lidar. Quando as coisas saem do meu controle, eu fujo. Por mais que eu
goste, por mais que eu ame alguém, eu fujo dessa pessoa. Não é porque eu odeie
as pessoas. Não é porque eu esteja irritado com elas. É simplesmente porque eu
não sei mais qual o meu papel. Você é o contrário. Você conserta tudo que toca.
Já consertou minha vida quinhentas vezes. Já me mostrou o caminho certo
inúmeras vezes. Eu tenho coisas para consertar. Coisas que preciso resolver
sozinho. Enquanto isso, conserte a sua vida. Henrique te faz bem. Não há nada
pior neste mundo do que ficar longe de quem te faz bem. Acredite, eu sinto isso
na pele. Eu sei que você nunca vai me abandonar, mas ele não sabe.
Rexona, conserte as coisas. E se tudo
desmoronar na sua cabeça, a gente assiste Netflix
e se desconserta de uma vez só. Tô contigo pro que der e vier.”


Gente trouxa é foda.
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